Uma visita a Call of Duty (2003) após duas décadas
O caos da segunda guerra mundial retratado em Call of Duty (2003)
Algumas poucas franquias tem o poder de gerar continuações quase que anualmente, obviamente nem todos os títulos são capazes de sustentar essa qualidade quando suas equipe de desenvolvimento estão sempre espremidas ao máximo por conta de prazos apertados. Em especial para os jogos de franquias que possuem pouca variação entre seus títulos é sempre frequente que os mais antigos caiam no esquecimento, ou ao menos percam sua popularidade com o público no passar do tempo.
Pode-se dizer que Call of Duty se encaixa neste seleto grupo. Durante toda sua trajetória, inegavelmente alguns títulos destacaram-se mais que os iniciais, Call of Duty: Modern Warfare II e Call of Duty: Black Ops III são exemplos, ambos os títulos ganharam bastante destaque em seus respectivos lançamentos e mantiveram sua popularidade após. Contudo, dentro deste balaio é natural que alguns outros títulos relevantes a sua época com o passar do tempo percam a popularidade, e talvez seja este o caso do primeiro título da série.
De Medal of Honor à Infinity Ward
Mencionar a criação de Call of Duty é falar a respeito de Medal of Honor, e retornar a um passado que já não existe mais. Medal of Honor nasceu no PlayStation, sendo um dos poucos jogos de tiro em primeira pessoa na plataforma — um gênero praticamente dominado pelo Nintendo 64 durante essa geração — o título nasceu fortemente influenciado pela maior propagando americana criada em Hollywood — Os filmes de guerra.
Em especial, não qualquer filme de guerra, mas o grandioso Resgate do Soldado Ryan (1998) que fora lançado apenas um ano antes do jogo. Essa influência não é atoa, o próprio diretor do filme, Steven Spielberg, esteve intimamente envolvido com a produção do jogo. A série ganhou seu destaque a época, recebendo mais algumas sequências entre consoles e computadores.

A primeira aventura da série nos computadores, Medal of Honor: Alied Assault (2002), ficou a cargo da desenvolvedora 2015, Inc. que encerrou seu contrato com a EA Games, publicadora do jogo, logo após seu lançamento. Esse time de desenvolvimento logo caiu nas mãos da Actvision que ajudou na fundação da conhecida Infinity Ward, cujo seu primeiro trabalho fora desenvolver um jogo capaz de bater de frente com Medal of Honor.
Call of Duty, nasce sob as mesmas influências de Medal of Honor, inclusive recebendo o nome “Medal of Honor Killer” durante sua fase de desenvolvimento. Toda sua base foi desenvolvida em uma versão melhorada da Id Tech 3, engine desenvolvida pela IdSoftware (Responsável pela criação de Doom e Quake) , engine esta que havia sido usada inicialmente no desenvolvimento de Quake III Arena (1999).
Aliados contra o Eixo
A primeira experiência de Call of Duty não possui um foco tão grande na narrativa de seus personagens, ao menos não trabalha nenhuma trama profunda de forma individual. Pode-se dizer que cada um dos três personagens controlados, ao longo do modo Single Player, servem como visores para posicionar o jogador em cenários de guerra ao longo da Europa. Buscando em partes não glorificar as batalhas desse período, mas transmitir o caos do campo de batalha para o jogador.
Novamente, referências a filmes de guerra estão presentes por todas as campanhas do jogo. Dentre elas, vale mencionar o efeito shell shock que demonstra o estado de confusão mental em momentos que uma bomba explode próximo ao jogador e que fora retratado pela primeira vez em Resgate do Soldado Ryan. Porém, em especial, ao filme Círculo de Fogo (2001), onde algumas cenas inteiras foram praticamente copiadas para dentro do jogo.

O grande diferencial inicial de Call of Duty é que boa parte de suas missões envolvem o avanço de uma equipe inteira por todo mapa, ao invés de um único jogador, sendo toda a equipe controlada pela inteligência artificial do jogo. Em geral com estas inteligências artificiais servindo mais para gerar a ilusão de um esquadrão que se move, e avança pelo campo de batalha, do que realmente sendo útil em alguma batalha.
Nestes moldes o jogo no seu modo Single Player se divide em três campanhas, representadas respectivamente pelos exércitos Americanos, Britânicos e Soviéticos. Com destaque para a campanha soviética, que é de longe uma das mais caóticas de todo o jogo e a qual é inteiramente baseada no filme Círculo de Fogo. Em ambos os obras é retratada uma parte da sangrenta batalha de Stalingrado. O filme conta a história do sniper Vassili Zaitsev, que fora transformado em um símbolo da resistência soviética durante a invação alemã. Apesar de o jogo não retratar o mesmo personagem, sua campanha é em grande parte baseada na utilização de armas de longo alcance, em geral na função de sniper.
Notas sobre os níveis de dificuldade
Algo que vale a pena ser mencionado sobre este primeiro título de Call of Duty é o quanto os níveis de dificuldade superiores obrigam o jogador a mudar seu estilo de jogo. Existem quatro modos de dificuldade no jogo: Recruit, Regular, Hardned e Veteran. Os dois primeiros permitem uma maior flexibilidade de jogabilidade, muitas vezes abrem uma brecha para avançar como um boomer shooter, apenas atropelando inimigos pelo caminho. O mesmo não pode ser dito dos outros dois níveis.
As missões em Call of Duty podem ser divididas em quatro categorias: Avanço de Território, Invasão, Defesa de Território e Perseguição. Sendo, em especial, as missões de defesa de território as mais difíceis entre todas as campanhas, pois contam com hordas quase intermináveis de inimigos vindo de todos os lados. As de invasão sofrem com uma maior variedade na dificuldade, estas são as únicas que o jogador avança sozinho em esconderijos e fica a mercê de paredes e objetos no caminho para desviar de projéteis inimigos.

Para o resto das missões o jogador está sempre acompanhado de um esquadrão controlado pela inteligência artificial, que fica progressivamente mais burra a medida que os níveis de dificuldade aumentam. De forma proporcional a inteligência artificial dos inimigos sobem a níveis que beiram a impossibilidade de reagir contra. Ao menos em poucas sessões que a aparição de inimigos bem de posições aleatórias, é quase certeza a morte com um ou dois tiros antes que o jogador seja capaz de localizá-los na tela.
A partir da dificuldade Hardened o jogodor é praticamente obrigado a ser extremamente cuidadoso com todos os passos dentro do mapa. Sendo quase sempre forçado a assumir uma posição de sniper e antecipar a aparição de inimigos antes que o jogador entre em seu campo de visão. Caso entre, a chance de acerto dos bots, mesmo a distância chega aos 100%. Deitar-se ajuda a reduzir a chance de acerto por parte do inimigo, mas nem sempre é funcional. O recomendado é manter-se em algum local que bloqueie balas inimigas e mover-se apenas após ter certeza que todos naquela proximidade foram eliminados.

Algumas fases como a Pegasus Bridge e Battleship Tirpitz acabam se tornando em um grande teste de paciência, ou mesmo uma demonstração de desepero. Com inimigos surgindo de locais imprevisíveis e matando o jogador sem que o mesmo sequer se dê conta de onde vieram os tiros que o matou.
Conclusões
A série Call of Duty em pouco mais de vinte anos de existência conta com mais de 45 jogos lançados sob o guarda-chuva da frânquia. Com uma constante renovação e oferta alta de títulos, é natural que os jogos mais antigos que formaram as bases da série acabem sendo esquecidos com o tempo. Ainda que alguns títulos atuais sofram de falta de inspiração, ou mesmo sejam tão bons quanto outros do passado.
Call of Duty (2003) apesar de estar um tanto distante das melhorias que a série recebeu com o passar do tempo, e alguns argumentem que sua qualidade gráfica não é das melhores para os padrões de hoje, o título merece ser jogado. Existe uma pequena aura nele que consegue jogar entre o cinematográfico e o entretenimento, mas também são capazes de passar para o jogador, ás vezes de forma bastante crua, os horrores da Segunda Guerra Mundial.

Quase impossível passar entre os escombros da Normandia, sem se questionar sobre a destruição causada. Com bastante nota para a campanha soviética, que consegue retratar um verdadeiro inferno na terra durante a batalha de Stalingrado, sendo a mais sangrenta do período e sua retomada foi essencial para conter as forças nazistas.
A versão para computador de Call of Duty, recebeu um tempo depois uma expansão contendo novas missões chamada de Call of Duty: United Offense, desenvolvido pela Gray Matter e que talvez receba uma menção no futuro. Sua versão com a DLC podem ser encontradas a um preço bastante salgado na Steam, ao menos para um jogo lançado duas décadas atrás. Sendo recomendado aguardar uma boa promoção para adquirir o título, junto a sua expansão.
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Um exemplar humano da denominada Gen Z. Frequentemente falando a respeito de videogames e quando sobra tempo escrevendo sobre eles. Não menos importante, professor de matemática.


