A narrativa de Castlevania atráves de seu principal personagem, o Castelo de Drácula
As paredes de um castelo guardam mais mistérios que apenas um pedaço de carne bem passado.
Desde os primordíos da série, Castlevania trata de uma batalha do bem contra o mal bastante definida entre a linhagem Belmont e o exercíto do Drácula. Essa contraposição de forças já se apresentou de variadas formas entre os diversos títulos da série, em outra postagem, por exemplo, foi realizada uma discussão sobre a forma como Ayami Kojima contribuiu por meio de sua arte para uma interpretação dessa batalha.
Em verdade, há um terceiro personagem a série tão relevante quanto a família Belmont e o próprio Drácula. O Castelo Demôniaco de Drácula, nome original da série em japonês, trata-se não apenas de um dos cenários de horror mais reconhecidos da ficção, não atoa o Castelo do Conde Vlad Tepes III é uma construção real, como é uma construção tão indisociável do personagem quanto seus dentes pontiagudos.
Aqui, gostaria de tomar como recorte três obras que serviram de palco para guiar a discussão que se segue, Drácula (1897) escrita por Bram Stoker — como não podia deixar de ser diferente — Castlevania (1987) e Castlevania: Symphony of the Night (1997). Isso, pois, em cada uma dessas obras, o castelo toma uma caracteristica diferente que comunica-se com a obra em questão. Castlevania III: Dracula’s Curse (1989) e tantos outros títulos também apresentam sua visão a respeito do Castelo de Drácula, mas iremos focalizar apenas nestes três e seus respectivos protagonistas.
O Castelo na visão de Jonathan Harker

O romance original, publicado por Bram Stoker em 1897, possui diversos cenários como palco de atuação. Naturalmente, o castelo do Conde Drácula, localizado no interior da Transilvânia, toma uma grande parte desse romance. Na história, narrada atráves de cartas, documentos, materais de jornais e diários pessoais, o advogado Jonathan Harker é enviado para negociar pessoalmente com o Conde Drácula a compra e venda de algumas terras em Londres.
Jonathan, que inicialmente viaja até a Transilvânia em uma viagem de negócios, é alertado desde as primeiras páginas do romance sobre as peculiaridades do dono daquele castelo pelos moradores da região. A partir de então a vida de Harker passa a tornar-se um pesadelo, que é narrado por meio de suas cartas, aqui encontra-se a nossa primeira percepção acerca do castelo de Drácula: o horror.
Naturalmente, em uma história de horror é esperado que o ambiente também seja um ambiente de horror. Os primeiros momentos de contato do advogado com o conde, são por si só, momentos de grande estranheza devido aos hábitos peculiares do conde. Contudo, a visão do próprio conde para Harker nunca passou de uma mera relação de negócios, o mesmo nunca chegou a ameaçar diretamente o advogado — apesar de deixá-lo trancado lá para que não escapasse.
Grande parte da tensão criada na primeira parte da história dá-se por uma descoberta do próprio Harker de quem realmente é o Conde Drácula, e o que sua mudança para Londres poderia implicar — importante lembrar o cenário hostil à imigração que rondava a Europa da época e que em breve iria implodir em duas grandes guerras.
Sob a perspectiva da imigração — entenda-se por ódio aos imigrantes —, existem outros aspectos da obra como a necessidade do Drácula ser transportado da Transilvânia para Londres junto da terra na qual o mesmo foi enterrado — ou seja, terras da Transilvânia — e que a derrota do mesmo se dá pela expulsão do Drácula de Londres e uma grande perseguição do mesmo até o seu castelo na Transilvânia — aqui pode-se entender que o castelo também representa o local do qual o mal nunca devia ter sido liberto.
Dada a exceção deste último momento, em uma parte considerável da obra, o castelo, enquanto personagem, representa o ambiente de medo.
O Castelo na visão de Simon Belmont

Diferente de Drácula, cujo cerne é a construção de uma ameaça estrangeira, Castlevania, como já mencionado no artigo que abordei a revolução as artes de Ayami Kojima para a série, trata de uma simples contraposição de bem e mal. Onde o bem, representado pelo exército de um homem só, Simon Belmont, contrapõe, por meio da coragem, a encarnação de todo o mal, que é o próprio Drácula.
Aqui, vale salientar, que apesar de levar em consideração o romance e inclusive fazer referêcia ao autor Bram Stoker nos créditos finais, o grande palco de influência de Hitoshi Akamatsu — hoje reconhecido com diretor da trilogia original de Castlevania — foi o cinema de horror da década de 1930. Dessa forma outras figuras relevantes como o monstro de Frankenstein, a Múmia, entre outros.
Importante salientar que Castlevania (1987) não realiza, em momento algum, a construção castelo do drácula enquanto um cenário de horror, mas sim de exploração. Não há músicas tensas, cenários ou confrontos que gerem necessariamente um sentimento de apreensão — e isso não é limitação técnica da plataforma, uma vez que Metroid, mesmo com seus limitações, consegue criar um ambiente de horror por meio de sua atmosfera de isolamento.
Como, novamente, já comentado anteriormente, a própria arte de divulgação presente nos materiais de divulgação e encartes do jogo já declaram a sua proposta de contraposição entre bem e mal — onde a figura de Simon, inspirada por personagens como Conan, o Bárbaro, demonstram o ideal de coragem. A própria cena de abertura, que depois tornaria-se uma das mais icônicas referências a videogames, com o Simon — nosso exercíto de um homem só — posicionando-se frente a grande estrutura do Castelo de Drácula já demonstram o caminho tomado.
Poderia tomar aqui o sidescrolling unilateral como um elemento dessa ideia de enfrentamento, uma vez que o personagem apenas avança, nunca retornando a salas anteriores — exceto em caso de uma nova chance por meio de vida-extra. O castelo, então, passa a representar não mais o ambiente de medo experienciado por Harker, mas uma estrutura de poder que precisa ser combatida e será combatida atráves de um personagem que não recua, Simon Belmont.
O Castelo na visão de Alucard

Alucard está presente na série desde Castlevania III: Dracula’s Cruse (1989), ainda sim, seu protagonismo exclusivo veio apenas em Castlevania: Symphony of the Night (1997) agora dirigido por Koji Igarashii. O título em questão, apresenta por se só uma revolução dentro da série, subvertendo conceitos basilares da construção da própria série até então. Possuindo, inclusive, um dos antigos hérois da própria série na posição de vilão — logicamente, controlado por um capanga do próprio Drácula.
Algo importante salientar é a forma como Symphony of the Night parece trazer uma narrativa que tem como ponto principal encerrar um ciclo para o antagonista da série, Drácula. Até o presente momento, vale salientar que dentro da série não haviam uma razão pela qual o Drácula surgia para subjulgar a humanidade. Na verdade, o Drácula nada mais era que a própria materialização da maldade presente no coração dos homens, o chamado “mal encarnada”.
A narrativa que tornou-se vigente na série e até mesmo em outras mídias, onde a esposa de Drácula foi acusada de bruxaria e sentenciada pela Inquisição a morte na fogueira — algo que confere a figura de Elizabeth Tepes um certo status de mártir —, ganhou tração por meio da releitura da obra clássica pelas mãos do diretor Francis Ford Copolla, com o filme Dracula’s Bram Stoker (1992), que transforma, inclusive, a mudança de Drácula para Londres uma espécie de busca pela alma reencarnada de seu amor, morta injustamente séculos atrás.
Alucard, por sua vez, é mais um empréstimo dos cinemas, orignalmente servindo apenas de identidade falsa para o Drácula, o filme Son of Dracula (1943). O nome, por vezes aparece como sendo justamente uma contra-parte do próprio Drácula, como no mangá Hellsing (1999), onde Alucard representa o próprio Drácula, porém renascido e com novos ideais. Castlevania, por sua vez, adota Alucard como o próprio filho do Drácula.
Sendo Alucard, uma espécie de meio-humano, meio-vampiro, capaz de compreender o martírio de sua mãe. Ele torna-se o elo que irá transformar esse martír, em uma ação concreta contra as ações violentas do próprio pai. Em suma, a figura de Alucard representa desfecho narrativo contra a guerra de seu pai à humanidade.
Sim, o Alucard é um personagem mais complexo presente até então na história da série. Contudo, onde entra o castelo nessa jogada? Há de mencionar que o Alucard, diferente dos membros da família Belmont, não é um outsider, mas sim filho do próprio Drácula. Em outras palavras, o castelo um dia foi a casa do personagem, que agora precisa se voltar contra ela para sua destruição definitiva.
O castelo aqui é palco de uma gigantesca união de afetos, ali residem as memórias de seu pai, o bibliotecário, até mesmo capangas como Shaft e a Morte, mas entre aqueles corredores é que Alucard, por exemplo, conhece Maria. O castelo, denominado dentro do próprio jogo como um “ecossistema vivo” passa a representar um espaço de exploração, mas também carregado de lembranças — não atoa referências frequentes a títulos antigos — e que precisa ser destruído para encerrar uma espécie de ciclo vicioso.
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Um exemplar humano da denominada Gen Z. Frequentemente falando a respeito de videogames e quando sobra tempo escrevendo sobre eles. Não menos importante, professor de matemática.

