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Final Fantasy deveria ser o último jogo antes da Square falir?

Final Fantasy surgiu como a última aposta da Squaresoft antes de declarar falecia… Será mesmo?

Há uma grande possibilidade de que você tenha ouvido, ou mesmo lido, em algum canto da internet que a origem do nome Final Fantasy é devido a um estado terminal no qual a Squaresoft se encontrava. Sendo assim, o título seria a aposta final da empresa antes de declarar falência. Dessa forma o nome carregaria consigo a “Fantasia Final” da empresa em dar certo.

Seja lá quem inventou essa história, é alguém bastante criativo. Sendo provavelmente uma das fake news mais recorrentes envolvendo games. Essa história foi repetida tão extensamente que é muito provável que alguns acreditem fielmente nessa versão oficial dos fatos. Contudo, o próprio Sakaguchi, criador da série, contesta essa versão.

A parceria que mudou os rumos da Square

No artigo A briga que causou a separação da Nintendo e Square é possível conferir um pequeno recorte do surgimento da Squaresoft. Em especial de Final Fantasy, que mudou os paradigmas da própria empresa.

Até 1987, a Squaresoft possuía uma produção bastante inconsistente de títulos. Inicialmente houveram jogos adventure sendo lançados para o PC-8801 da NEC, posteriormente houveram tentativas em shoot’em ups. Até mesmo jogos de corrida a Squaresoft botou as mãos, com Rad Racer. Título esse que chegou até a ser incluído no desafio Nintendo World Championship 1990 ao lado de Super Mario Bros. e Tetris.

Hironobu Sakaguchi trabalhou em um dos primeiros títulos que fizeram a ponte entre a Squaresoft e a Nintendo, o King ‘s Knight. Jogo esse que também trouxe pela primeira vez um trabalho do músico Nobuo Uematsu. Contudo, a essa altura, Sakaguchi já estava incomodado com a sua participação dentro da empresa.

Para a Square, RPG não tinha futuro algum

estilo de role-play game possuía uma certa fama na base de usuários de microcomputadores da época. Apple II, PC-8801 e MSX já marcaram presença no mercado japonês. Junto a essa presença, algumas poucas empresas destinadas a criar softwares voltados para o entretenimento também surgiram no país. Enquanto títulos produzidos nos Estados Unidos da América também vieram por importação.

Última e Wizardry são franquias que fizeram um relativo sucesso neste nicho. Algo que chamou tanto a atenção de Yuji Horii e Koichii Nakayama na Enix Corporation, mas serviram de inspiração para Hironobu Sakaguchi na Squaresoft. O interesse por estes títulos criou em cada um o interesse de adaptar essas mecânicas e apresentá-las ao público japonês. Contudo, a Squaresoft nunca foi muito favorável a bancar um projeto próprio de RPG. A crença da empresa é que o investimento era muito grande para um estilo que não iria pegar com o público japonês. 

Como dito no artigo Dragon Quest: A história de desenvolvimento de uma lenda, a Enix deu portas aos seus criadores para apostar nesse caminho. Dragon Quest é lançado em 27 de Maio de 1986, entretanto não é um sucesso imediato. Após uma boa divulgação realizada na Weekly Shonen Jump o jogo passa a ganhar popularidade ainda no final daquele ano. Se encaminhando ainda em 1987 para se tornar a série mais popular do Japão.

Com o sucesso demonstrado por Dragon Quest, não demorou muito até que a Squaresoft desse o aval para a produção de RPG próprio. A equipe liderada por Hironobu Sakaguchi, no entanto, contava com apenas sete pessoas. Uma equipe minúscula é considerada insuficiente para concluir o projeto.

Rad Racer

Algo curioso ocorreu durante o início do desenvolvimento do projeto de Final Fantasy. Nasir Gebelli, um programador iraniano que havia publicado alguns jogos para microcomputadores, chegou até os escritórios da Squaresoft propondo alguns projetos para a empresa. Hironobu conhecia o seu trabalho e prontamente se dispôs a ajudar no projeto de Rad Racer, um jogo de corrida bem aos moldes do arcade OutRun da SEGA.

Dessa forma, Sakaguchi deixou o projeto do RPG da empresa nas mãos de Koichi Ishii. Koichii iniciou o planejamento de Final Fantasy, criando os designs e algumas das principais ideias da série. Inclusive, sendo o criador do Chocobo que apareceu pela primeira vez em Final Fantasy II. Quando devolveu o projeto para Sakaguchi o mesmo alegou que não haveria como levar o projeto a frente com uma equipe tão pequena.

Rad Racer garantiu boas vendas a Square, chegando a marca de 1.95 milhões de cópias vendidas, em especial no mercado americano que abraçou o título. Chegando até mesmo a estar presente no filme-propaganda O Gênio do Videogame (1989), além de um tempo depois ter feito parte do desafio Nintendo World Championship 1990 ao lado de Super Mario Bros. e Tetris.

Desânimo e vontade de abandonar tudo

Após o trabalho em Rad Racer, Nasir Gebelli passou a integrar o projeto Final Fantasy. Contudo, o próprio Hironobu Sakaguchi não estava mais tão acreditado no projeto. O pequeno time de desenvolvimento que a Squaresoft disponibilizou, por não acreditar no projeto, levou o próprio Sakaguchi a imaginar que talvez ele não conseguisse avançar com o projeto à frente.

Em entrevista à revista Famitsu, em 2007, segundo essa transcrição do site develop-online, Revelando o próprio que o nome Final Fantasy, que outrora durante o planejamento seria Fighting Fantasy, não refletia a drástica história de ser a última aposta do Squaresoft.

Final Fantasy, representava tão somente o sentimento de dúvida com o projeto que o próprio Hironobu Sakaguchi nutria dada as condições em que ele se encontrava. Sakaguchi revela que estava duvidando do potencial do projeto. Inclusive, chegando a cogitar largar a Squaresoft e retornar à universidade para seguir carreira acadêmica. Ele teria que repetir um ano da universidade, além de não ter mais os amigos que conheceu antes de sair. Sendo para ele o pior cenário possível. Uma “situação final” de acordo com o próprio.

Ainda na mesma entrevista, ele revela que após a finalização do projeto teve de convencer os executivos da Squaresoft a investir no projeto. A mesma só tinha investido o valor suficiente para que 200.000 cópias do jogo fossem produzidas, metade do que era esperado por Hironobu, que logo tratou em convencê-los de que Final Fantasy possuía potencial de vender até 400.000 cópias.

Final Fantasy de fato se tornou um grande sucesso para empresa, vendendo 1.20 milhões de cópias, de acordo com o VGChartz. Sendo o 61º título mais vendido do NES, ficando de Final Fantasy III que vendeu 1.40 milhões e de Rad Racer que vendeu 1.96 milhões. 

Apesar das vendas, Final Fantasy está muito longe de ter sido o título que salvou a Squaresoft da falência. Em verdade a empresa até estava passando por uma desestruturação devido a mudanças internas, porém, definitivamente Final Fantasy não foi o único responsável por levantar a empresa durante esse período. Não excluindo a influência de Final Fantasy para empresa, uma vez que após ele, a mesma acabou se firmando como uma das mais influentes no ramo dos J-RPGs.

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