Vampiros, Sexualidade e a arte gótica de Ayami Kojima
Como a artista Ayami Kojima compreendeu o cerne da franquia Castlevania criando artes que são impossíveis de dissociar da série
A artista Ayami Kojima, é amplamente conhecida por sua participação dentro da franquia Castlevania. Desde Castlevania: Symphony of the Night, que reformulou a franquia da cabeça aos pés, Ayami Kojima se tornou responsável pela apresentação visual da maioria dos títulos que sucederam este.
Não demorou muito para que as suas artes caíssem no gosto dos fãs da série, fazendo bastante falta nos momentos em que não se fizeram presentes. Castlevania : Dawn of Sorrow e Portrait of Ruin sofrem bastante com críticas relacionadas ao abandono da estética gótica em detrimento de um estilo mais voltado para animes.
Assim como Symphony of the Night mudou o jogo, literalmente falando, a arte que acompanhava a série mudou o seu principal teor. Até aquele momento a apresentação visual da série, em capas, encartes, campanhas publicitárias impressas, posters e etc, foi bastante inconstante. Deste título em diante, os personagens passaram a ganhar uma faceta mais delicada e sensual. Em contraste com tudo o que havia sido construído até ali.
Castlevania antes de Ayami Kojima

No artigo Como Castlevania consagrou o Drácula na história dos games, houve uma abordagem sobre as referências basilares da franquia. Castlevania nasceu como uma homenagem de Hiroshi Akamatsu aos filmes de terror clássico do cinema americano. Além obviamente do personagem principal usar como arma a mesma utilizada por Indiana Jones, a primeira abordagem visual para o mesmo é bastante influenciada por He-Man. Exalando uma certo heroísmo por meio do físico apresentado pela personagem.
Momentos nos quais o Drácula também se fazia presente nessas artes, quase sempre era retratado de forma monstruosa ou, no mínimo, obscura. Um caminho natural, uma vez que o cerne desta saga é completamente influenciada por filmes de terror dos anos 1930. O próprio Alucard, filho de Drácula, que aparece como um ajudante em Castlevania III : Dracula’s Curse também é retratado de forma bastante monstruosa. Diametralmente diferente da forma pela qual ele é conhecido.
Uma olhada em Castlevania: Bloodlines
Em suma, o padrão para artes da série reunia uma masculinidade bruta representada pelas forças dos membros do Clã Belmont, representando de certa forma a coragem, que se contrasta com o tema sombrio e monstruoso do Drácula. Uma das poucas exceções que fogem à regra são artes feitas para Castlevania : Bloodlines.
Lançado exclusivamente para o Mega Drive, Bloodlines é o primeiro título da franquia que não utiliza nenhum dos personagens principais definidos até então. A família Belmont está desaparecida, dando lugar a John Morris, que está em posse do chicote Vampire Killer, e Eric Lecarde. As artes trazem um contraste bastante interessante entre ambos os personagens, enquanto John trás um visual mais robusto, Eric por sua vez é apresentado com traços mais sutis e femininos.

Drácula também não se faz presente aqui, dando lugar a outra vampira, Elizabeth Bathory. A figura de Elizabeth contrasta com aquela apresentada por Drácula até o presente momento, trazendo uma sensualidade em sua figura. Sendo a primeira mulher a aparecer em um dos papéis de maior destaque da trama, a de se entender o motivo de ressaltar a sensualidade feminina ao invés da monstruosidade. Contudo, ainda que esta seja a primeira a ser retratada de forma sensual, a verdade é que a própria existência dos vampiros está ligada à sexualidade, em especial à bissexualidade.
Carmilla e a homosexualidade
Quando avaliamos o papel da mulher na literatura, assim como em diversas obras ficcionais, mais antigas — ainda que este padrão seja visível no mundo contemporâneo — poucas ou quase nenhuma obra dão um real valor a sua figura. A mulher, quando não aparece com a recompensa para o protagonista (a clássica donzela em apuros), é posicionada apenas como uma escada narrativa para o homem. Seja como motivação para seguir sua aventura, seja como o estopim para sua evolução enquanto personagem na trama.
Carmilla, escrita pelo autor irlandês Sheridan Le Fanu, apresenta um tom bastante diferente a estas obras envolvendo mulheres. Dadas as proporções da época, o autor deixa no ar um suposto romance promíscuo entre a protagonista Laura e a vampira Carmilla. Esse romance, que se manifesta por meio da habilidade sedutora dos vampiros, é transformado nas entrelinhas em um força de desejo sexual entre as personagens.
A personagem Carmilla, em geral, pode ser entendida como uma quebra da moral vitoriana vigente na época. Ainda que seja uma personagem imponente e livre, Carmilla é retratada de forma monstruosa, pois não há nada que atinge com força as inseguranças e medos de um homem medíocre do que uma mulher que se liberta de seu controle. Em especial, quando essa mulher se sente livre para relacionar-se com outras.
Drácula e o poder de sedução dos vampiros
Ao contrário de Carmilla que possui menções a um romance homossexual, Drácula apresenta uma figura excentrica. Não é a sua figura que causa medo, mas sim a sua presença. Tanto Carmilla quanto Drácula são representados como figuras aristocráticas, contrariando convenções de tratar monstros como monstros.

Drácula é na verdade alguém com alto capital cultural, seguindo à risca o manual de bons comportamentos da época. Artifícios estes que servem como uma explicação para os poderes de sedução de Drácula. Este poder é levado ao extremo com o personagem Reinfield que mantido em cativeiro em um hospício, é retratado como um louco sob o domínio de Drácula.
A história de Drácula, narra um estrangeiro vindo da Transilvânia, que busca se instalar na Inglaterra. A Europa sempre foi um palco em chamas por relações territorialistas, que acabou por eclodir anos após a publicação de Drácula na Primeira Guerra Mundial. A monstruosidade de Drácula não é sua aparência, mas sua presença, pois representa o medo de que os povos estrangeiros imigrantes destruam a sociedade cristã vigente.
Drácula: Figura de sedução e manipulação
A fraqueza perante as cruzes, água benta e outros símbolos religiosos católicos e ortodoxos não são acaso. Contudo, outra parte intrínseca à natureza do personagem é sua capacidade de dominação. O poder de Drácula acomete três personagens durante toda a obra, Reinfield, Lucy Westerna e Mina Harker. Em especial, Lucy Westerna que estava prestes a se casar, acaba por passar por uma transformação de vampirismo o qual é entendido como a quebra de sua pureza.
A própria ideia de vampirismo, com o personagem fazendo vítimas sugando o sangue de seu pescoço remete à intimidade e ao prazer sexual. Bram Stoker, escreveu seu texto de forma a manter essas características borradas entre suas entrelinhas. É possível dizer que a adaptação que mais jogou luz sobre estes temas foi Bram Stoker’s Dracula (1992), trazendo de fato um Drácula sedutor a ponto de tornar Mina Harker intensamente apaixonada por ele.
Ayami Kojima e Castlevania
Retornando para Ayami Kojima, quando foi encarregada das artes de Symphony of the Night, ela mudou o jogo. As criaturas que outrora eram retratadas de formas monstruosas, agora ganham um ar de requinte, traços suaves e uma certa beleza feminina adicionado a alguns personagens masculinos.

Alucard é aquele que reflete a sensualidade com mais afinco, possuindo um ar de androginia em sua figura. As artes de Kojima ressaltam esta qualidade de forma bastante sútil, a adaptação realizada mais tarde pela Netflix, entrega um personagem ainda mais forte nestas características, ainda que utilizando o mesmo visual como base.
Conde Drácula também sofreu alterações em seu desenho, desta vez remetendo de fato a um conde vitoriano. Ambos os personagens são demarcados por esta sutileza, que exprimem bem o poder de persuasão e sedução. Em parte, justifica o motivo de Drácula possuir um exército de monstros tão fiéis à sua disposição.
A reformulação pós Symphony of the Night
Alguns membros do Clã Belmont passaram pela mesma reformulação, Richter Belmont mantém boa parte do ideal de masculinidade. Contudo, em Castlevania : Chronicles, que reconta os eventos do jogo original lançado para NES, Simon Belmont recebeu um novo tratamento aos moldes de Alucard.

Não tão aristocrático quanto, pois os Belmont representam uma família de guerreiros. Simon Belmont é mostrado com um longo cabelo ruivo e um olhar sedutor. Drácula também se faz presente, em uma versão mais jovem do que fora apresentado em Symphony of the Night. Aqui sendo apresentando ainda mais sedutor do que fora anteriormente.

Outro personagem relevante, é Soma Cruz, que é a reencarnação do próprio Drácula. Como não poderia ser diferente, o mesmo é tomado por uma aura sedutora, nas artes apresentadas pela Ayami Kojima para Castlevania : Aria of Sorrow. Possuindo um toque mais delicado, agora utilizando vestes modernas, afinal o jogo se passa no ano de 2035. Alucard aparece mais contido nas veste de Genya Arikado.
A arte de Ayami Kojima captura a essência do vampirismo

Como discutimos aqui, o vampirismo é uma construção cultural-histórica que se viu ligado diversas vezes com a sexualidade. A figura profana, atraente e sensual apresentada em Carmilla e Drácula representavam medos vigentes de suas respectivas épocas relacionadas à repressão sexual em uma sociedade vigiada pelo moralismo religioso cristão católico e ortodoxo.
Ayami Kojima removeu o imaginário de Castlevania do lado puramente monstruoso e foi capaz de transportar essa verdadeira essência da literatura gótica e das grandes histórias de vampiro para o seu trabalho. Implementando, na imagem dos personagens está contida veia que liga os vampiros a sexualidade, representando em tela sua capacidade persuasiva. Entregando um estilo do qual é quase indissociável da franquia.


Extremamente interessante essa temática