O futuro domado pela inteligência artificial de Phantasy Star II
Um planeta desértico transformado em paraíso tropical que guarda um povo incapaz de agir, esse é o mundo de Phantasy Star II.
Em um lugar muito distante, em uma era remota, o planeta Motavia, que antigamente era um deserto, foi terra formado tornando-se um planeta verde. Tudo isso graças a um computador central, chamado Mother Brain, que mantêm as condições atmosféricas estáveis para exista vida humana em harmonia.
Mil anos se passaram desde que a heroína Alis derrotou o demônio Lassic, permitindo a paz no sistema solar de Algol. Embora sua existência já não seja lembrada, afinal aproximadamente um milênio se passou desde os acontecimentos narrados em Phantasy Star, o jovem Rolf é atormentado por um sonho no qual Alis é morta pelo demônio Lassic e assiste a tudo sem poder interferir.
Ao acordar e se encontrar com o Comandante de Motavia, ele descobre que monstros estão aparecendo por todo o planeta e acredita que a origem disto seja o laboratório de experiências bio-tecnologicas. Dessa forma, Rolf é ordenado a verificar o que aconteceu. Junto a ele está Nei, uma menina que ele salvou de ser assasinada a uns meses atrás e que considera como irmã.
Este não é apenas mais um mundo decadente (ao menos não aparenta)

Phantasy Star II vai na contramão daquilo que representava um J-RPG até aquele momento. Enquanto Dragon Quest e Final Fantasy já haviam se estabelecido como jogos de fantasia medieval e fantasia científica, em geral remetendo a estética medieval de Dungeons & Dragons, Phantasy Star optou pelo caminho de olhar para o futuro, apresentando um RPG em turnos inteiramente influenciado pela ficção científica.
Essa decisão leva a um plano de fundo diferente a ser explorado dentro das regras criadas no tabuleiro de Phantasy Star II, que curiosamente traz uma narrativa um tanto mais madura, em especial quando comparado aos outros títulos do mesmo gêneros lançados em sua época.
As primeiras horas de gameplay em Phantasy Star II levam o jogador a explorar esse vasto mundo em um planeta distante. Diferentemente daquilo que se espera para a história prestes a se desenvolver, o cenário não é apocalíptico, ao menos não em sua superfície. Motavia é um planeta prospero, com água e vegetação abundante, totalmente contrário a qualquer futuro distópico. Contudo, essa beleza que salta aos olhos de um futuro brilhante logo demonstrará que é artificial.
Você não é mais que suas memórias
Algo interessante de se notar é que todas as cidades são povoadas por grandes datacenters. Sua principal função é armazenar as memórias dos moradores de Motavia. Eles desempenham um papel essêncial nas mecânicas do jogo, afinal para salvar o progresso dentro do jogo é necessário fazer a utilização de um destes datacenters. A memória dos personagens é alocada nos dados do jogo e pode ser reacessada para continuá-lo a qualquer momento.
Não apenas isso, mas algo mais inusitado ocorre quando um personagem morre em batalha. Uma tradição comum em outros J-RPGs é a de levar o companheiro morto até uma igreja, ou capela, e rezar para que sua alma retorne. Phantasy Star II, no entanto, opta por outro caminho. Caso algum companheiro morra em batalha, ele está morto. Apesar disso o mesmo ainda pode ser reintegrado a equipe.

Isso acontece pelo fato dos grandes datacenters, que possuem acesso as memórias, serem capaz de criar um clone perfeito deste companheiro com base nas informações armazenadas sobre ele. Ou seja, o indivíduo deixa de ser importante, afinal pode ser imediatamente substituído por um novo com as mesmas qualidades e memórias do anterior. Da mesma forma que um funcionário que deu a vida por um empresa, pode simplesmente ser substítudo por outro, com as mesmas qualidades e competências do anterior.
Apenas mais um dia em um mundo caótico
Não demora muito até a campanha mostrar que talvez esse mundo não seja a maravilha que sua população acredita que seja. Logo após acordar, Rolf recebe a missão de ir até o laboratório de pesquisa em Biotecnologia. Algum acidente está liberando hordas de monstros que estão atacando a cidade, ele deve ir até o laboratório e preparar um relatório no computador principal para que este evento seja investigado.
No caminho para o laboratório de Biotecnologia, eles descobrem que o homem que tentou assassinar Nei estava solto bloqueando a passagem. Isso os leva a cidade de Arima, atacada por um grupo de vândalos e deixada em escombros. Lá eles descobrem que Darum, o homem que tentou assassinar Nei, se tornou extremamente violento por conta deste ataque, no qual sua filha fora raptada.
Ao investigar o caso, eles encontram Tiem, que descobre que seu pai virou um assassino por sua causa e resolvem levá-la até ele. Tiem encontra-se com seu pai e imediatamente os dois morrem juntos em uma explosão causada por ela. Apesar da cena, “é apenas mais um dia comum desde que o mundo entrou em caos.”, sem grandes emoções a aventura continua.
Alguém está sabotando o planeta…
A próxima parada é a cidade Oputa, lá os viajantes encontram com o músico Ustvestia. Na versão original em japonês, o personagem é assumidamente gay, não apenas elogiando a aparência do rapazes do grupo, mas também cobrando menos para ensiná-los suas habilidades. Após Oputa, eles se dirigem ao laboratório de Biotecnologia e levam os dados consigo.

O Comandante de Motavia manda os dados para analise e diz acreditar nos planos da Mother Brain. Segundo ele, seu principal plano é os proteger. Contudo, a sua proteção acabou tornando a população fraca e letárgica. Após as análise dos dados, eles descobrem que houve um vazamento de energia, que danificou os equipamentos e causou a aparição dos monstros, desestabilizando o sistema. O grupo agora fica encarregado de ir até a central de climas, para resolver este problema.
No meio do caminho, o jogo vai apresentando uma sociedade bastante acomodada com a sua vida. Por conta do teletransporte, ninguém mais utiliza outro meio de transporte. Muitos ali parecem viver um sonho que já não corresponde mais aquele mundo, mas apenas a uma sobra do que Motavia fora um dia. Com a entrada no mar proibida pela Mother Brain e nenhum viagante disponível, a saída para adentrar o mar e chegar a torre de controle climático é buscar no lixão por alguma máquina antiga. A jornada segue em frente, contudo ao chegarem na torre de controle climático, e se depararem com uma pilha de corpos jogados pelo caminho, o grupo conhece Neifirst.

Ela revela que assim como Nei, ela também é fruto de experimentos no laboratório de Biotecnologia. Neifirst, no entanto fora considerada uma falha, antes de ser eliminada ele fugiu levando consigo informações sobre seu DNA e prometendo vingança contra os humanos. Contudo, havia uma parte de sua consciência que estava tentando impedir, esta era Nei. Ao se reencontrarem, ambas lutam, Nei morre e o grupo jura vingar sua morte.
Sentença de morte por ir contra o computador central.
Apesar disso, o sistema de clonagem é incapaz de trazer Nei de volta a vida, uma vez que o sistema funciona exclusivamente com humanos e Nei não era um. Os problemas no entanto não acabaram, o lago estava começando a transbordar e logo Motavia seria tomada por um dilúvio. Não obstante, o grupo de Rolf esta tendo sua cabeça caçada pela polícia por serem os culpados de causar estes danos ao planeta e enlouquecer a Mother Brain.
Ao tentar liberar a passagem da água para evitar a inundação, o grupo é capturado e sentenciado a morte por causar danos a Mother Brain. No último momento, Tyler, um pirata espacial, os salva e explica que fugiu por não aguentar viver sob o comando desta inteligência artificial e os retorna em segurança.
Tyler recomenda os heróis a se direcionarem para o planeta Dezo, alguém naquele planeta seria capaz de agir contra a Mother Brain. Em Dezo, eles são direcionados até um palácio onde Lutz estava aguardando por sua recepcção. Lutz revela que os pesadelos de Rolf não ocorriam por acaso, Rolf era um descendente de Alis e assim como ela, ele estava destinado a salva o sistema Algol.
O reinado na Mother Brain
Lutz revela que após a vitória de Alis, Algol viveu em paz e as pessoas estavam satisfeitas com sua vida. Contudo, a chegada de Mother Brain representou uma mudança na vida no sistema Algol. Ela começou a criar uma vida que confundiu a cabeça das pessoas, em pouco tempo elas estavam insatisfeitas com o que tinham e passaram a lutar por aquilo que a inteligência artificial as proporcionou.
Com o passar do tempo eles se tornaram incapazes de viver sem a proteção da Mother Brain, ou mesmo cogitar que a vida sem ela seria impossível. A lembrança de Alis adormeceu, a mente da sociedade enfraqueceu e Algol começou a entrar em um círculo vicioso de destruição. A batalha agora era pela libertação do povo de Algol.

Ao encontrarem com a Mother Brain, ela os alerta que sua destruição traria ruina para o povo de Algol. Agora acomodados e confortáveis com suas vidas, seriam incapazes de tomar as rédeas do seus próprio destino e morreriam impotentes de dar continuidade a sua existência. Rolf, no entanto, extermina a Mother Brain com a esperança de que o povo agora seja livre para superar as suas dificuldades por conta própria.
A inteligência artificial não irá te substituir, mas pode te deixar dependente
Histórias sobre máquinas controlando o mundo não são das mais raras. Desde a primeira revolução indústria existe uma disputa homem-máquina sobre o trabalho, afinal, uma máquina é capaz de cumprir com perfeição o trabalho de vários homens. Contudo, uma máquina faz tudo sempre igual, e os poucos defeitos são descartados.
O surgimento da inteligência artificial generativa trouxe as luzes de volta a este tema, inicialmente fazendo parte da automatização de trabalhos entediantes, posteriormente “roubando” o trabalho criativo. No cenário atual muito se discute a respeito dessa tecnologia na verdade ser uma bolha, existe uma grande especulação do mercado tecnológico em inserir esse tecnologia em todos os locais, mas nenhum preocupação real em determinar se ele é realmente necessário.
A inteligência artificial generativa é incapaz de substituir o esforço humano, contudo pode agilizar processos. A internet dos últimos anos foi inundada por um tipo de conteúdo que foi denominado AI Slop, produzido aos montes, sem nenhum direcionamento especializado, checagem na veracidade de informações ou mesmo uma curadoria de qualidade. Apenas conteúdo gerado aos montes, para suprir uma necessidade que até então não existia, mas que agora magicamente se tornou necessária.
Apesar dos pesares, o consumo extensivo de um conteúdo sem profundida, seja gerado automaticamente por uma inteligência artificial generativa, ou mesmo produzido de forma natural pela burrice humana é capaz de gerar danos a um cérebro que busca comodidade. Um cérebro que não enfrenta desafios para conectar ideias é um cérebro que pode ser facilmente domado pelo consumo padronizado, reduzindo a qualidade de produção e de quebra se tornando um fonte de lucro. Em especial, em locais onde a educação não é vista com bons olhos.



[…] e social que também podem ser levados em conta. A título de exemplo, neste texto que há uma pequena reflexão sobre inteligência artificial dentro de Phantasy Star II, um jogo lançado em 1988. É possível analisar um obra, mesmo sem considerar suas mecânicas, […]