A guerra eterna, a partida de Civilization que durou 11 anos
Essa deveria ser apenas mais uma partida de Civilization, mas a Guerra Eterna
Em julho de 2012, um usuário do reddit chamado Lycerius compartilhou uma experiência especifica com o jogo Sid Meier’s Civilization II. Na postagem ele relata a respeito de uma partida dentro do jogo que já durava cerca de 10 anos, isso pois, ele jogava um pouco e vez ou outra retornava aquela partida para seguir um pouco mais em frente.
Contudo, as variáveis relatadas do caso acabaram chamando a atenção de toda a comunidade que se reuniu para tentar resolvê-la. Algo que ficou conhecido como A Guerra Eterna, possuindo até mesmo um fórum específico dentro do reddit para que jogadores compartilhassem a sua estratégia em como conseguir vender os jogos nas condições dadas.
Retornando para 2012, este foi o cenário retrato por Lycerius: No ano de 3991 D.C, a terra virou um inferno devido a guerra nuclear, as calotas polares derreteram inundando boa parte da terra que não era composta por montanhas. O que restou, simplesmente fora tomado pela radiação, deixando boa parte das terras improdutivas. Cerca de 90% da população mundial fora extinta tanto pelo impacto inicial da guerra nuclear, quanto pela fome gerada por essa destruição.
A guerra sem fim iniciado por Celtas, Americanos e Vikings
Apenas três impérios ficaram em pé, repartindo a terra e lutando pelos poucos recursos que sobraram: Os Celtas, controlado pelo jogador, que implementaram um governo comunista e os Americanos e Vikings, ambos controlados pela inteligência artificial, que implementaram um governo teocrático.
A guerra entre essas civilizações começou por volta do século XXII, e desde então se arrastou em loop por 1.700 anos, entre estas três nações. Estas circunstâncias ultrapassam, obviamente, o tempo normal do jogo, portanto todos os jogadores encontram-se em pé de igualdade em relação as melhorias e tecnologias presentes no jogo, uma vez que todas as civilizações já as conseguiram.

Apesar disso, dado o caos gerado pela guerra nuclear nenhuma cidade consegue melhorias, uma vez que não existem terras para agricultura. A necessidade de força bélica para defender as cidades faz com que a produção de recursos seja utilizada para a produção de tanques, enquanto a população passa fome, gerando revolta e criando guerrilheiros. Os guerrilheiros aqui ocupam o cargo dos bárbaros em um momento futuro do jogo, em outras palavras criam um inimigo a mais para destruir a cidade do jogador.
Não obstante, existe também um impasse diplomático. O jogador busca tentar instaurar uma democracia, porém a mudança de regime causa revolta interna dentro das cidades diminuindo a produção de armamento para a guerra. O caminho seria fechar um tratado de cessar a guerra com os Celtas, porém, os mesmo quebram esse acordo no próximo turno.
Neste cenário, o intuito do jogador era encerrar a guerra e utilizar engenheiros para livrar o mundo dos danos causados pela guerra nuclear.
Os caminhos para acabar com a guerra eterna
O post realizado em 2012 chamou a atenção da comunidade de jogadores de Civilization II que acabou por criar um subreddit (ou fórum) dentro da plataforma exclusivamente para que jogadores desenvolvessem estratégias para encerrar a guerra infinita. Nomeado então de r/theeternalwar dentro da plataforma.
Em poucos meses a comunidade apareceu com algumas estratégias que foram testadas por Lycerius, que em menos de um ano retornou com atualizações sobre o caso. A estratégia escolhida para seguir com o jogo foi dada pelo usuário stupmster que conseguiu dar um fim a guerra dentro de 58 anos, estudando pontos para maximizar a produção de unidades de guerra específica e assim lidar com o ataque em duas frentes de guerra, os Vikings e os Americanos.
Em 2013, Lycerius retornou ao subreddit para compartilhar a atualização do seu próprio save. Com as informações necessárias para gerar o triunfo do governo Comunista Celta, o jogador permitiu que a narrativa se desenrolasse, fazendo com que a guerra se estende-se até o 42º século. Neste momento a capital dos Vikings, Piza, foi tomada. Apesar disso, o número de rebeliões dentro da civilização Celta apenas aumentou ano após ano. Dessa vez o grande inimigo não eram mais os Vikings, mas a própria civilização que se revoltou com o império e sabotar o próprio, acabando com suas estradas.
Os membros destas rebeliões acabou sendo chamado pela comunidade como Celtics Independents, que ainda retornariam no futuro.
As rebeliões aumentaram, mas a história segue sem final.
A última atualização para essa história foi dada no final de 2013, com o último post feito por Lycerius até então. Em 4320 D.C, nada havia mudado, o mundo seguia no mesmo caos instaurado a quase um milênio. Agora no entanto, a própria civilização celta havia entrado em rebelião, atrapalhando o desenvolvimento do próprio império. Destruindo estradas, fazendas e pontos estratégicos para a produção bélica. Dessa forma a rebelião acabou por tornar-se o maior inimigo do império, tomando mais recursos do que a batalha contra os Americanos e Vikings, que graças a perca de boa parte do seu território acabaram por formar aliança.

Ainda em meados do século XLII, os rebeldes conseguiram tomar uma das cidades do império para si, Shoreside Vale, uma importante cidade portuária para o império Celta. Desde então a guerra eterna segue sem nenhuma atualização, ainda que o criador seja um usuário ativo da plataforma, nenhuma nova atualização do caso foi gerada.
Guerra. A Guerra é imutável.
Sid Meier’s Civilization, nasceu como um jogo para computadores pessoais, em 1991, que adaptava mecânicas de jogos de gerenciamento e estratégia com a ideia de criação de uma civilização capaz de resistir ao tempo. A série criou uma grande número de títulos com mecânicas pouco interdependentes entre si, proporcionando a cada título formas diferentes de gerenciar estas civilizações.
Os efeitos disso passam desde a expansão territorial, aprimoramento militar, invasão de terras inimigas, diplomacia, exploração de recursos naturais e manutenção da política interna das cidades. Cada jogo utiliza suas próprias cartas para montar este cenário geopolítico. Isso permite ao jogador uma certa liberdade de reinventar o mundo e criar uma narrativa própria para os acontecimentos do mesmo.
Em alguns casos, como no episódio da Guerra Eterna, essa narrativa acaba se confundindo com a própria realidade. Em especial, considerando um mundo que se encontra fortemente polarizado e com a ascensão de governos autoritários e o perigo de uma guerra nuclear capaz de acabar com a humanidade de uma vez por todas.
A Guerra Eterna não chamou atenção por conta dos problemas gerados internamente com a lógica da inteligência artificial presente no jogo, mas sim por conta das circunstâncias que montam essa história e como a mesma se assemelha com os rumos que a humanidade está tomando em um futuro que não parece tão distante, ou que corre o risco de não ser mais tão fantasioso quanto uma simulação virtual.


