The Portopia Serial Murder Case: Embrião das Visual Novels
Esse jogo desconhecido do público ocidental, The Portopia Serial Murder Case, é mais influente do que você pode imaginar.
A Enix, que anos mais tarde se fundiu com a Square, iniciou como uma revista tablóide voltada a investimentos imobiliários. Permaneceu assim até mudar completamente de rumo e decidir focar no desenvolvimento de softwares. Neste momento, dois nomes fundamentais para a consolidação da empresa deram as caras, Koichii Nakayama e Yuji Horii. Essa história pode ser conferida com mais detalhes na postagem: “Dragon Quest: A história de desenvolvimento de uma lenda”.
Ambos os nomes foram fundamentais para a criação da franquia de RPG mais rentável do Japão, Dragon Quest. Essa não foi a única obra relevante a ser publicada por ambos.
Influências de Yuji Horii
Após ganhar o concurso promovido pela Enix e ter o título que ele submeteu ao mesmo, Love Match Tennis, publicado, Yuji Horii ficou livre para trabalhar em outro projeto. Em entrevista concedida ao site Automaton Media em 2017, Yuji revela que nutriu um interesse pelos jogos Adventure que eram produzidos fora do Japão. Como alguém que tinha vontade de tornar-se um mangaká, rapidamente ficou encantado com a ideia de contar uma história usando textos e imagens por meio de um computador.

Segundo o próprio, jogos como Mistery House (1980) serviram de inspiração. Contudo, a narrativa do jogo não o agradava tanto, ele gostaria de construir uma narrativa mais dinâmica. Em especial, influenciado pelo drama de suspense Kayoubi Suspense Gekijou, programa que fez um relativo sucesso no Japão, ficando em exibição de 1981 até 2005. Dessa forma, o planejamento era criar um Adventure que construísse uma narrativa inspirada em história de suspense.
The Portopia Serial Murder Case
Com essas ideias na mesa, Yuji Horii desenvolveu Portopia Renzoku Satsujin Jiken (O caso do assassino em série de Portopia, em tradução livre). Inicialmente o jogo foi lançado para os computadores pessoais, PC-6001 e PC-8801 da NEC, que posteriormente ficaria conhecido também pelo console PC-Engine. O título fez um relativo sucesso, recebendo ports para outros computadores, como o MSX.

Contudo, considerando que computadores pessoais ainda não eram comuns e apenas um pequeno nicho de pessoas tinham acesso. Ao passo de que o recém lançado videogame de mesa da Nintendo, o Family Computer, havia tido um sucesso estrondoso no Japão, não demorou muito para que ele recebesse sua versão em 1985.
O port do título para o Famicom foi bastante importante, pois enquanto trabalhava nele junto ao Koichii Nakayama ambos tiveram acesso aos RPGs ocidentais lançados para o console. O que influenciou na criação de Dragon Quest, e pode ser lido aqui em mais detalhes.
Investigação policial contada por um computador
O jogo narra o caso de Kouzou Yamakawa, um bilionário dono de um grande banco, que é encontrado morto em sua mansão pela empregada. As circunstâncias parecem apontar para um possível suícido por conta do empresário, mas elas ainda são muito ambíguas para concluir o caso. Uma agência de investigação é contratada para cuidar do caso e o jogador controla o investigador Yasuhiko Mano, para juntar pistas e interrogar os suspeitos a fim de concluir o caso.
Apesar do interesse inicial pelos adventure de texto, Horii os achava bastante complexos, pois acaba levando horas até acertar um comando que pudesse ser entendido pela máquina. Em forma de contornar a necessidade de digitar a ação por meio do teclado, ele optou simplesmente por adicionar botões dentro do jogo. Dessa forma o jogador poderia manualmente selecionar para executar a ação. Curiosamente, esse mesmo processo foi adotado anos depois em Dragon Quest.

O estilo visual de Portopia Renzoku Satsujin Jiken é bem simples, mas a narrativa, escrita por Yuji Horii acaba sendo bastante viciante. Não à toa, Yuji era escritor da Weekly Shonen Jump até entrar na Enix, o que garantiu para o jogo uma escrita de qualidade, mas em especial bastante dinâmica. Não há uma estrutura linear, o jogador pode descobrir pistas em qualquer ordem apenas por ser curioso o suficiente com o cenário. Isso possibilita explorar o caso, sendo possível acusar alguém como autor do crime, tendo a disposição uma quantidade variável de pistas.
Precursor das Visual Novels
Portopia Renzoku Satsujin Jiken não foi a única experiência em adventure feita por Yuji Horii. Em verdade, há uma trilogia de jogos de investigação que teve seu lançamento em paralelo com os primeiros títulos da série Dragon Quest. Hokkaido Rensa Satsujin : Okhostk in Kiyu (Assassino em Série de Hokkaido: Desaparecimento em Okhotsk) e Karuizawa Yuukai Annai (Guia de Sequestro em Karuizawa) segue os mesmos moldes.
Contudo, Portopia entre eles é o que mais se destacou. Inclusive, sendo citado por Hideo Kojima como uma grande influência em seu trabalho. Em especial por conta da sua versão lançada para o Famicom, que furou a bolha dos computadores pessoais, o jogo apresentou pela primeira vez o estilo adventure para o público japonês. Enquanto os adventure seguiram no mercado ocidental para se tornarem jogo Point and Click, no mercado oriental serviu de grande influência para a criação das Visual Novels.
As visual novels, em geral, ficaram bastante fechadas ao público japonês. Em especial adaptando histórias de mangás e light novels, contudo, alguns poucos títulos conseguiram furar a bolha e chegar ao público ocidental. Ace Attorney, é provavelmente o mais famoso do gênero, ainda que não haja influência direta é inegável que Portopia ajudou a construir o caminho até chegar lá.
Relançamentos
The Portopia Serial Murder Case ficou exclusivo ao Japão, contudo é possível jogar a versão lançada para o Famicom/NES com tradução para inglês feita por fãs. A jogo recebeu alguns poucos relançamentos, a maioria para celulares. O único relançamento, razoavelmente relevante, realizado em 2023 trazia uma experimentação com inteligência artificial realizada pela Square.
A nova versão de Portopia, que pode ser jogada gratuitamente, não teve uma boa recepção do público. Em especial por parecer uma grande conversa com o ChatGPT, afinal o jogo é inteiramente construído utilizando Processamento de Linguagem Natural. Com o jogador adicionando comandos por meio do teclado e conversando com os personagens do jogo para obter informações.



[…] depois, Koiichi Nakamura e Yuji Horii receberam a tarefa de portar um jogo da autoria de ambos. Portopia Renzoku Satsujin Jiken (O caso dos assassinatos em série de Portopia), para o Famicom. Durante a reprogramação do jogo, […]