A participação expressiva de jogos indies no The Game Awards
Ainda que o The Game Awards não seja das mais respeitadas premiações, talvez seja um bom momento para repensar o consumo.
Durante todo o ano ocorrem diversas premiações voltadas para jogos, entre elas a que mais se destaca é a The Game Awards. Verdade seja dita, as premiações do The Game Awards muitas vezes são mais baseadas em Hype do que em uma análise criteriosa dos títulos indicados. Não é incomum vê-la em comparativos com aquilo que o Oscar representa para os filmes, ainda que essa seja uma comparação bastante freestyle.
Ainda sim, premiações deste tipo servem como um termômetro para a indústria a qual elas se direcionam. Os vencedores de cada categoria, para além do reconhecimento de seu trabalho, se apresentam como modelos de negócio que podem direcionar os caminhos de outras empresas e desenvolvedores.
O que é o The Game Awards?

A premiação The Game Awards nasceu para suceder outra nomeada Spike Video Game Awards. Sendo esta a primeira versão a que popularizou o estilo que conhecemos hoje, fazendo da premiação um palco para apresentações de famosos e anúncios de novos jogos. A categoria Most Anticipated Game of the Year (Jogo mais esperado do ano) define bem a carga comercial que esta premiação possui.
Com o fim da E3 em 2023, cujos anúncios antes presentes se dissolveram em programas períodos das próprias empresas para divulgar seus produtos. É possível dizer que o The Game Awards herdou o posto dos grandes eventos e anúncios que outrora pertenciam a E3. Algo que aumentou bastante a sua popularidade nos últimos anos, fazendo-o ser um palco interessante para a análise.
2025 marca um ano bastante interessante para a premiação. É a primeira vez que jogos de criadores independentes ocupam as maiores categorias, com peso suficiente para deixar para trás a maioria dos títulos Triple A do mercado. Ainda que o teor e o peso técnico da votação seja questionável, há algo de interessante em se notar a respeito dos caminhos que a indústria vem tomando nestes últimos anos.
Afinal, o que é um jogo indie?
A premiação deste ano traz um espaço interessante para a discussão deste conceito tão nebuloso. Clair Obscure: Expedition 33, por exemplo, é o título revelação do ano e potencial ganhador da maior categoria. Contudo, o seu time de desenvolvimento é formado por alguns veteranos da indústria Ubisoft. Ainda sim, a publicação do jogo dependeu exclusivamente de uma equipe pequena de desenvolvimento que não teve ligação direta com empresas influentes.
No fim, o cerne é este, não estar sujeito aos interesses de uma grande publisher. Essa falta de financiamento, que gera como consequência a não necessidade de gerar lucros exorbitantes, dá a pequenos estúdios um tom mais autoral sobre as obras lançadas. Visto que estes têm uma maior liberdade para apostar em ideias novas, funcionalidades, narrativas que as grandes empresas não fornecem. Retornaremos a falar desta liberdade criativa em alguns momentos, mas antes seria interessante debater a crise criativa da indústria.
A situação da atual geração de consoles e das grandes empresas
A nona geração de consoles iniciada em 2019, com o PlayStation 5 e Xbox Series X e mais recentemente integrada com o Nintendo Switch 2 enfrenta uma queda absurda em número de vendas quando comparada com as anteriores. Segundo o VGCharts, ainda que PS5 siga como o mais vendido, suas vendas não chegaram a ultrapassar nem mesmo o PS3 e o Xbox 360.

Isto considerando os principais hardwares de mesa disponíveis no mercado. Fazendo com que os computadores ganhem um espaço maior para consumo de jogos, em especial, mais recentes. Ainda entre as plataformas lançadas, é provável que um aumento considerável de suas vendas venham apenas após as empresas que as lançaram pararem com o suporte oferecido.
A crise criativa da indústria de games

Não é de hoje que se acumulam críticas à falta de inovação presente nos jogos modernos. A oitava geração foi marcada pela remasterização de títulos antigos de sucesso da sétima geração até à exaustão. É possível pontuar nos dedos jogos recentes que ofereceram de fato experiências inovadoras ou mesmo diferentes.
Sendo justo, a Nintendo talvez seja a única das grandes que ainda se permite testar ideias diversas com suas propriedades intelectuais, Super Mario Wonder (2023) representa um pouco isso. Contudo, ainda sim são pouquíssimos estes casos. Quando olhamos para a guerra entre Sony e Microsoft o resultado é ainda mais deprimente, ambas as empresas entraram por três gerações seguidas na disputa por melhores gráficos para no final entregar quase sempre o mesmo jogo com novas apenas com uma nova aparência.
A última moda da indústria é a iluminação ultra-realista, o famoso Ray-Tracing, que tem gerado uma boa grana para as produtoras de placas de vídeo. Uma moda anterior havia sido as texturas em 4K. Sabe-se lá qual a nova moda será implementada com o lançamento de GTA VI. Contudo a verdade é uma só, as empresas estão focando na construção de assets visuais e escanteando o que faz um videogame ser um videogame.
A esperança na invasão dos jogos indies
Na contramão dos gráficos ultra realistas, diversos estúdios menores estão sendo capazes de entregar uma direção de arte coesa o suficiente. Em troca de realmente focar no cerne de tudo que é a diversão, desafio e experimentação. Hollow Knight: Silksong de um jogo com um visual coeso o suficiente, mas que entrega uma boa diversão.
Clair Obscur: Expedition 33 por outro lado, ainda que feito por veteranos da indústria, conseguiu a entrega de um visual bastante robusto, sem deixar de lado o sistema de RPG de turno, inclusive trazendo melhorias a jogabilidade deste estilo.
Não só de gráficos e jogabilidade vivem os games, afinal um jogo só existe se puder ser jogado. 2025 marcou um ano de aumento cada vez maior tanto de jogos, plataformas e serviços streaming oferecidos pelas grandes empresas. Mario Kart World chegou com o preço inicial de R$ 499,99 no lançamento, em julho. No final do ano, a Xbox Game Pass mais que dobrou o valor da assinatura mensal, saindo de R$ 59,99 para R$ 119,99.
Na contramão disto tudo, um dos títulos mais esperados da comunidade indie, Hollow Knight: Silksong chegou entregando uma experiência digna de grandes estúdios por apenas R$ 69,99.

Em resumo, ainda que o grau técnico da premiação não seja seu maior foco, premiações deste tipo têm a capacidade de voltar os olhos da indústria em outra direção. Para além da indústria, os olhos dos consumidores. Importante que os jogos independentes recebam um maior destaque e recebam a atenção de um público mais amplo que opte por comprá-los, em detrimento de alguma franquia famosa.
Esta pode ser uma das poucas formas que o público conseguirá demonstrar o cansaço pelo qual a indústria passa. Uma vez que criticar o aumento de preços, mas continuar comprando ou assinando serviços não passa a mensagem correta. Voltar os gastos para estúdios pequenos, incentivando suas produções ao invés de gastá-lo com um título requintado irá.



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